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“Quem é você nessa história?” - Pr. Givanildo

Publicado em 15/09/2024

Sobre esta mensagem

A pregação desta semana nos leva a um dos diálogos mais instigantes registrados nas Escrituras, encontrado em Lucas 10, onde um doutor da Lei se aproxima de Jesus com uma pergunta que ecoa através dos séculos: “O que preciso fazer para herdar a vida eterna?” Sua intenção, muitas vezes, não era de buscar conhecimento, mas de testar, de justificar-se, de provar um ponto. Contudo, Jesus, com sua sabedoria singular, devolve a pergunta: “O que está escrito na Lei? Como você a lê?”

O doutor da Lei, um especialista em suas áreas, respondeu com precisão e beleza, citando os mandamentos centrais: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.” A resposta de Jesus foi direta: “Respondeste bem; faz isso, e viverás.” Este é o cerne da questão: não apenas o que dominamos em conhecimento, mas o que verdadeiramente vivemos. Muitas vezes, conhecemos a letra, mas lutamos para vivê-la plenamente.

O Desafio da Letra e a Voz do Coração

Apesar de sua resposta impecável, o doutor da Lei não se contenta. Sua próxima pergunta, “Quem é o meu próximo?”, revela o desejo de justificar-se, de limitar a abrangência do amor. Talvez buscasse em Jesus uma brecha, uma exceção que o isentasse de um amor incondicional. Essa tendência humana de procurar equívocos na verdade divina, de complicar o que é simples, é frustrada pela eternidade e eficácia da Palavra de Deus, que resiste ao tempo e penetra a divisão da alma e do espírito.

Jesus, percebendo que uma resposta direta não era suficiente para transformar o coração daquele homem, opta por uma abordagem lúdica e profunda. Ele nos ensina que, às vezes, a mudança não vem de argumentos lógicos, mas de uma história que nos envolve, que nos faz sentir e refletir. A Parábola do Bom Samaritano é essa história, um espelho que Deus utiliza para trabalhar em nossos corações.

A Parábola da Indiferença: Sacerdotes e Levitas

A narrativa de Jesus começa com um homem que, viajando de Jerusalém a Jericó, é assaltado, espancado e deixado semimorto. Surge, então, um sacerdote. Em Êxodo 19, Deus chamou Israel para ser um “reino de sacerdotes e nação santa”, com a condição de obediência à Sua aliança. Hoje, nós, crentes, somos também chamados a ser “pedras vivas”, um “sacerdócio real” (1 Pedro 2:5) e “embaixadores de Cristo” (2 Coríntios 5:20). Nosso papel é adorar, ajudar outros a adorar, ensinar a Palavra, anunciar as bênçãos de Deus e estar de pé ministrando. Mas, por que o sacerdote passou de longe?

Da mesma forma, o levita, responsável por guardar as Tábuas da Aliança, cuidar do Tabernáculo e transportar a Arca – símbolos da presença e autoridade de Deus – também passou de largo. A pregação nos confronta: como temos guardado a Palavra em nossos corações? Como temos preparado a “tenda” para a adoração ao Senhor em nossas vidas? Por que eles se distanciaram? Pode ter sido medo, posição de destaque, ou talvez o perigo de se tornar um “ativista congregacional”. O ativista está sempre ocupado com as atividades da igreja, mas perdeu o “primeiro amor” (Apocalipse 2:4). A devoção e o propósito dão lugar à indiferença. Deus não busca ativistas, mas servos dedicados, dispostos a morrer por Sua causa, cujo coração, alma, força e entendimento estão inteiramente entregues a Ele.

O Samaritano: Amor Que Rompe Barreiras

Por fim, surge o samaritano. Num tempo em que judeus e samaritanos viviam em ódio e inimizade, a passagem de um samaritano por aquele caminho era algo incomum. O rancor, como um “pé de chuchu”, pode dominar nossos corações, impedindo-nos de amar. Mas este samaritano, apesar de seu passado de desprezo, esqueceu-se de suas próprias necessidades e foi movido por um profundo senso de propósito e compaixão. Seu coração “pulsou” de misericórdia.

Ele não se limitou a sentir; agiu de forma sacrificial e zelosa. Aproximou-se do homem caído, derramou azeite e vinho em suas feridas, cuidou dele pessoalmente, levou-o para uma hospedaria em seu próprio animal, pagou por sua estadia e prometeu retornar para cobrir quaisquer despesas adicionais. O samaritano não abandonou o homem até que ele estivesse “estabelecido”. Esta é a verdadeira essência do amor que age, que rompe barreiras denominacionais e preconceitos, que se esforça para que as vidas não se percam, cuidando delas até que estejam firmes e restauradas.

Vai e Procede de Igual Modo

Jesus, então, retorna a pergunta ao doutor da Lei: “Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?” A resposta do intérprete da Lei foi inevitável: “O que usou de misericórdia para com ele.” E a exortação de Jesus, que ressoa para cada um de nós, foi clara e desafiadora: “Vai e procede tu de igual modo.

A pregação conclui com uma reflexão poderosa de Lucas 6:45: “O homem bom tira coisas boas do bom tesouro que está em seu coração, e o homem mau tira coisas más do mal que está em seu coração, porque a sua boca fala do que está cheio o coração.” Esta mensagem nos convida a uma autoanálise profunda: “Quem sou eu nesta história?” Que a Palavra do Senhor em nós produza o desejo de derrubar toda barreira de comodismo, orgulho e apego a placas denominacionais. Que nossos corações sejam movidos em direção ao próximo, manifestando um amor que não só conhece a Lei, mas a vive integralmente, com misericórdia e ação.